A vida flui na seqüência comum do dia-a-dia quando, de repente, não mais que de repente – como diz o poeta, o pequeno entremeio de flores se alarga e as estradas distanciam-se, deixando a harmonia dos tons paralelos para a dissonância oblíqua que afasta em definitivo lá adiante tudo o que ainda há pouco era tão próximo. Assim, sem que percebamos, ao nosso lado já não mais temos a estrada na qual parávamos quando precisávamos descansar da viagem que nos extenuava em nossa própria senda. Aquela linda avenida, ali, sempre ao lado, que nos servia de acostamento, aguardando apenas o nosso desejo de parar um pouco a cada milha percorrida. Para onde ela foi? As flores que nos separam dela tornaram-se um jardim, ainda lindo porém largo demais... E assim cresceram deixando mais e mais distante a nossa via segura de apoio que julgávamos tão nossa.

Eis o que tantas e tantas vezes acontece na jornada das pessoas. Eis o choro de quem se surpreende com o óbvio distanciamento que dia após dia afasta, a pouco e pouco, a nossa via segura de apoio. Por que? Porque comumente não cuidamos de nos manter na mesma estrada, não ao lado, mas junto de quem amamos. Decisões são inevitáveis na Vida... Principalmente aquelas duras, que causam dores de uma só vez, lancinantes às vezes. São verdadeiras e vêm de um só golpe, ao contrário do distanciamento que a omissão e covardia plantam, de começo com apenas uns poucos graus de amplitude, levando o barco à estibordo só um pouquinho, mas apontando um horizonte já inatingível para nossa embarcação depois de mais algum tempo.

Se você quer uma sugestão, não permita que a via segura ao seu lado tenha nem mesmo uma única flor entre si e a sua jornada. Eleja, escolha, defina a sua vida junto daquele, ou daquela, que você quer por toda a Vida. Deixe para trás tudo e todos se preciso for, mas esteja na correnteza certa, junto do barco, pequeno ou grande, de que você e seu coração necessitam. Ninguém consegue manter consigo a via livre de mais alguém; é preciso que a estrada seja uma só, com uma só carruagem e dois lugares, um seu e outro dele, ou dela.

( Aurélio Leite )

Abra o seu coração...
Retonar...