O perdão é um valor moral
presente em todas as religiões. Muito já foi dito sobre o perdão
e acerca da natureza diamantina de sua essência. O maior de todos
os Mestres ensinou que devemos perdoar não sete vezes, mas setenta
vezes sete vezes. Gandhi libertou sua Pátria da opressão inglesa
sem disparar um único tiro, assim como que desde o início já perdoando
o poderoso invasor.
Não pretendo acrescer
nada a esse tema, até porque não teria suficiente erudição. No
entanto, humildemente ponho-me em cogitações sobre a NECESSIDADE
de perdoar.
Apartemo-nos da
religiosidade. O homem vive e evolui no seio da sociedade, de
modo que o ente coletivo exerce sobre si evidente influência.
Se pensarmos que os conflitos são inevitáveis e ainda numerosos,
perceberemos que a paz social depende fundamentalmente da capacidade
da sociedade abafar no nascedouro os atritos potenciais que o
individualismo enseja na vida em comum. Independentemente dos
mecanismos de repressão, é de todo interessante que uma sociedade
tenha como valor fundamental o perdão. Eis que mais que um imperativo
de ordem ético-religosa, o perdão é talvez o fenômeno que com
mais propriedade distinga o ser humano dentre todos os demais
habitantes deste planeta. É uma necessidade intrínseca até mesmo
ao equilíbrio do ente coletivo, vale dizer, da espécie em si,
e não apenas do espécime. Importante perceber que não se trata
de uma conveniência que deva ser cultivada, mas sim de um aspecto
da própria evolução da espécie humana.
Tenho para mim que
os instintos conquistados pelo homem em sua longa jornada evolutiva,
e que estão ainda por certo presentes e vigentes, recebem agora
o influxo do condicionamento emocional propiciado pela consciência
de si mesmo. A razão, comumente apontada como algo frio aos moldes
de uma tabuada ou mera lógica aritmética, na verdade abrange toda
uma escala de valores que situam-se mais acima ou abaixo em importância
conforme as emoções exerçam maior ou menor apelo na conceituação
final. Não sei de nenhum ser humano, por maior seja-lhe a maldade
imputada, que não tenha sido uma criança, como todas, sedenta
de carinho e atenção.