Minhas
experiências começaram muito cedo...
DESCOBRI
DEUS
Aos
sete anos, saí de uma cidade onde os arranha-céus e o concreto imperavam.
Avenidas movimentadas com pessoas sempre apressadas, indo e vindo
num bailar constante, muitas vezes assustador. De São Paulo fui
para o Rio de Janeiro.
No
Rio, desde logo vi a Baía de Guanabara - uma imensa sensação de
liberdade! As águas contrastando com o anil do céu me encantaram
e me passaram uma grande Paz... Conheci minha nova casa em uma chácara
em Alcântara - Niterói. O gramado e as árvores mostraram-me que
o Verde era ali a majestade da pura natureza. A calma era a sinfonia
do lugar. Quanta diferença! Da Avenida 9 de Julho em São Paulo para
um recanto em Niterói. À noite, não mais o barulho dos motores,
mas sim o som das corujas... De manhã, a melodia dos pássaros...
Um lugar muito lindo, com flores, frutas e eu ali... Nessa época
eu descobri a beleza das noites estreladas, do brilho da Lua, um
brilho tão especial e dominador...
Cerca
de dois anos depois mudei-me para um verdadeiro paraíso na cidade
de Cabo Frio. Já havia aprendido muito com a Mãe Natureza, mas novamente
fui surpreendida. Lá estava eu, sentada em uma duna de branca areia,
defronte para o mar de uma beleza indescritível, sob o céu azul,
o verde das águas, o Infinito, a Paz... Nesse momento mágico percebi
que existe um Criador, Deus... Só o Mais Sublime e Absoluto Mistério
poderia criar tudo aquilo, presenteando o ser humano com tamanha
Beleza... Ali descobri valores como andar, enxergar, ouvir e sentir
na pele o toque suave do vento e o calor do Sol no meu corpo...
Mesmo ainda com pouca idade percebi a importância da Fé, de saber
da existência do Criador, Onipotente, Onisciente e Onipresente!
Parecia que fui tocada de uma forma muito especial dali por diante.
Minha
vida mudou. Os meus sonhos, pensamentos e "pressentimentos"...
Cresci,
amadureci, mesmo tão menina. Mas logo tive que me mudar novamente,
para o Rio de Janeiro, capital. Já então com a certeza de que minha
vida mudara. Parece que fui preparada para muitas coisas que viriam
e que, de fato, ocorreram no decorrer dos anos.
NO
RIO DE JANEIRO
Na
capital a vida era bem menos mágica, muito mais cinza e rude...
Além disso, temporais, enchentes, acidentes... momentos difíceis...
A perda do primeiro amor, mortes inesperadas, tristeza e dor misturaram-se
nesses momentos de minha vida. Mas existia em mim uma Força, uma
superação, tudo invocando-me as imagens de Cabo Frio, imagens que
me preenchiam, fortaleciam, que me envolviam numa prece...
A
VOLTA PARA SÃO PAULO
O
concreto, o cimento armado, as avenidas, a correria... Chegaram
os meus 15 anos. Em Interlagos os motores potentes nas corridas,
adrenalina a mil... Mas isso me incomodava e muitas noites me peguei
pensando no silêncio, na paz, na beleza que eu guardava dentro de
mim... a chácara... Cabo Frio... O Criador... Quando fui tocada
de forma tão linda por Algo que eu nem sabia entender... Eu buscava
algo mais... Eu pressentia muito mais em minha vida...
NOVAMENTE
NO RIO
Passei
a morar na Avenida Paulo de Frontin, lugar de grande movimentação
onde o concreto e o verde se misturavam. De um lado o grande viaduto,
do outro o Morro de Santa Tereza. E eu ali, no meio de um cenário
da Mãe Natureza e das mãos dos homens. O pôr do Sol, a chegada da
Lua iluminando o morro, as ruas, o céu... Na avenida, os carros
correndo, os erros humanos, as falhas mecânicas e a morte no asfalto
frio da grande cidade... Naqueles tempos não havia os grupos de
resgate, de modo que voluntários uniam-se para retirar de ferragens
corpos muitas vezes destroçados. Era a violência do crescimento
urbano.
Olhava
tudo isso com muita angústia. Tinha conhecido o paraíso e via agora
o inferno. O contraste da vida. Dor, alegria, perdas, vida e morte.
Quieta e observadora, mantinha algo especial que sempre surpreendia
com um lado positivo em tudo - uma força interior que me movia no
enfrentamento dos obstáculos, fortalecendo as pessoas, deixando
sempre um sorriso de menina sonhadora que não queria ver lágrimas
de tristeza, mas sim sorrisos.
SÃO
JOSÉ DOS CAMPOS - SP
Novamente,
mudança. Desta vez, para São José dos Campos. À época, e em relação
ao Rio ou São Paulo, vi-me em uma cidade pequena, tranquila e linda,
com o dourado na pele, cabelos loiros e compridos e o forte sotaque
carioca. Na faculdade fiz novos amigos e despertei a curiosidade
pelo jeito de abordar as coisas da vida. Diziam ver um ar de mistério
no que eu dizia. Eram intuições, premonições... sonhos ou realidade?
Não fazia questionamentos, pois aceitara isso em minha vida desde
Cabo Frio, nas dunas, quando algo realmente se manifestou muito
forte dentro de mim... Ao mesmo tempo, preparou-me para uma vida
cheia de boas e más surpresas.
Casei-me
aos 19 anos e logo fui mãe de um lindo menino que, por erro médico,
foi privado da visão direita. Desde o nascimento houve uma grande
luta para a preservação de sua visão esquerda, com uma força estranha
a envolver-me ao invés das lamuriações, choros e lamentações. Nessa
luta ajudei a fundar um banco de córneas, figurando o meu filho
como a criança símbolo da campanha. Foi um esforço comum meu, de
vários médicos e do Rotary Club. Várias crianças beneficiaram-se
desse banco de córneas. O meu filho já agora ostenta a beca de pesquisador,
tendo-se graduado em Odontologia, com Mestrado concluído e o Doutorado
já quase findo. Vitorioso, portanto, sem ter-se deixado abater por
um pequeno senão do destino. É o mais velho dos meus tesouros, um
Amigo, um vencedor, vivendo com perseverança e alegria.
O
segundo filho veio. Nasceu, viveu, meigo, suave... Amava as rosas,
os lírios, o Sol, beija-flores, enfim a Natureza... Ensinou-me muito.
Ficou comigo 6 anos e 11 meses. No jardim de nossa casa, embaixo
de uma linda roseira que ele mesmo havia plantado, partiu... Partiu
silencioso, inesperadamente, inexplicavelmente, deixando as mais
lindas lembranças e a mais forte das dores que eu vivi e ainda vivo.
Só resisto pela Magia do Tempo e pela força que Deus me deu nas
dunas de Cabo Frio. Entendi por que fui tocada e tão cedo aprendi
tanto da vida. Conheci o Paraíso e o Inferno... Alegrias e Dores...
Devolver um filho a Deus dói muito... Uma dor que fica embrenhada
na pele, no sangue, no coração...
A
Vida progrediu e Deus me enviou duas filhas lindas que me encheram
o coração de emoção. Nos gestos simples eu percebi que a Vida vale
a pena e eu precisava continuar. Uma das princesas veio com apenas
6 meses de gestação... Pequenina... Exigiu-me Amor, o mesmo Amor
que me devolvia minuto a minuto na luta que travamos juntas contra
a fragilidade que a punha em risco. Novamente a Força me envolveu
e impulsionou para vencer os medos e atingir a plenitude da Vida.
Ao
chegar a terceira filha, linda, suave, meu esposo soube ter um câncer
no intestino. Novo golpe do destino... Esperávamos uma cirurgia
e sessões quimioterápicas para derrotar o mal. Mas era um câncer
com infiltrações na artéria mesentérica, desdobrando-se, com muita
luta e dedicação, em dois longos anos e dez meses de sofrimento,
vivenciando no hospital o dia-a-dia de dor até o chamado final do
Pai Eterno.
Chorei
muito. Desesperei-me. Pensei em meus filhos, meus pais... De novo
precisava superar a dor e continuar a caminhada. Chamei o meu garoto
e as três meninas. Dêmo-nos as mãos e nos prontificamos a continuar.
Viver vale sempre a pena. Enquanto Deus nos quer vivos, temos a
obrigação de lutar, de tentar, sempre buscando a felicidade.
O
tempo novamente fluiu... Antes da internet tornar-se popular, pessoas
buscavam contato através dos antigos BBS (Bulletim Board System),
uma espécie de prenúncio da rede atual de computadores (seria como
uma internet graficamente primitiva, em ambiente DOS). Numa sala
de conversa conheci alguém especial que logo me encantou. Apaixonei-me
e o Amor nasceu em mim... Iniciou-se uma nova etapa em minha vida...
Casamo-nos em 1996. Juntos desde então, enfrentamos vários obstáculos,
preconceitos, mas vencemos e estamos juntos na pele, na alma e no
coração... A Vida mostrou-nos uma face até então desconhecida: como
o preconceito pode ferir quem apenas e tão-somente busca a felicidade
para si mesmo, em sua vida própria.
Mais
quatro lindos filhos vieram desde então... Somos uma família, como
qualquer outra, com problemas, dificuldades, mas fundamentalmente
com muito, muito Amor!
Sempre
dediquei tempo de minha vida para dividir minhas experiências em
programas voluntários na Rádio (Palavra Amiga - Rádio Clube - final
dos anos oitenta). Também crônicas em jornal, visitas a Asilos,
Abrigos... Agradeço a Deus por ter me oferecido tanto. Agradeço
a oportunidade de dividir minhas experiências.
A
VIDA SEMPRE VALE A PENA! .